
Reconhecer, valorizar e fortalecer a docência na Educação Infantil significa investir diretamente no desenvolvimento das crianças e no futuro da educação pública. A reflexão esteve no centro do debate promovido pela ACP durante uma edição especial do PodPrô, realizada na véspera do 4º Seminário da Educação Infantil, que acontece nesta quarta-feira (18), em Campo Grande.
Com o tema “Docência na Primeira Infância: da invisibilidade à valorização através da luta sindical”, o seminário propõe uma discussão sobre a trajetória histórica da Educação Infantil no Brasil, os desafios enfrentados pelos profissionais da área e a importância da valorização docente para a garantia do direito à educação desde os primeiros anos de vida.
Antecipando esse debate, o PodPrô ACP reuniu a coordenadora do Coletivo de Educação Infantil da entidade, professora Rosileide Lima da Silva, a pesquisadora Tamyris Cristina de Alcântara Dantas e a professora da Rede Municipal de Ensino de Campo Grande, Maila Bogue Marcato Espíndola.
Ao longo da conversa, as participantes chamaram atenção para um aspecto frequentemente invisibilizado: o desenvolvimento infantil não acontece de forma espontânea. Ele depende de interações, experiências e, sobretudo, da atuação de profissionais qualificados capazes de compreender as necessidades e potencialidades de cada etapa da infância.
Os primeiros anos que moldam toda a trajetória escolar
Embora a Educação Infantil seja reconhecida legalmente como a primeira etapa da Educação Básica, ainda persistem concepções que reduzem o trabalho desenvolvido em creches e pré-escolas a uma função meramente assistencial. A realidade vivenciada diariamente por professores e professoras da área, no entanto, revela um cenário muito mais complexo e decisivo para a formação humana.
Durante o debate promovido pela ACP, a professora da Rede Municipal de Ensino de Campo Grande, Maila Bogue Marcato Espíndola, destacou que é justamente nos primeiros anos de vida que acontecem algumas das transformações mais significativas do desenvolvimento infantil. Atuando diretamente com bebês, ela explicou que o trabalho pedagógico realizado nos berçários envolve muito mais do que cuidado e acolhimento, contribuindo para o desenvolvimento cognitivo, emocional, motor e social das crianças.
Segundo a educadora, é nessa fase que os bebês começam a construir suas primeiras formas de comunicação, compreender emoções e estabelecer relações com o mundo ao seu redor. “O pedagogo no berçário participa diretamente do início desse processo de desenvolvimento. É quando os bebês começam a compreender emoções, estabelecer formas de comunicação e construir suas primeiras relações sociais”, afirmou.
A fala da professora dialoga com uma compreensão cada vez mais consolidada na área educacional: a de que os primeiros anos de vida exercem influência decisiva sobre toda a trajetória escolar e sobre a formação integral das crianças.
O professor como mediador do desenvolvimento humano
Ao aprofundar a discussão, a pesquisadora Tamyris Cristina de Alcântara Dantas ressaltou que o desenvolvimento infantil não ocorre de forma espontânea. Segundo ela, a aprendizagem é resultado de um processo social e cultural construído a partir das experiências vividas pelas crianças e das interações estabelecidas com os adultos e com o ambiente.
Nessa perspectiva, o professor ocupa uma posição central. Desde os primeiros meses de vida, é o educador quem cria condições para que a criança desenvolva a linguagem, a comunicação, a imaginação, a autonomia e diversas outras capacidades fundamentais para sua formação.
A pesquisadora destacou que essa compreensão rompe com a ideia, ainda presente em parte da sociedade, de que o desenvolvimento acontece naturalmente, independentemente da intervenção pedagógica. Pelo contrário, exige profissionais preparados, formação continuada e conhecimento aprofundado sobre as especificidades da infância.
“O desenvolvimento da criança não acontece sozinho. Ele depende da mediação de adultos qualificados, capazes de compreender as necessidades e potencialidades de cada etapa do desenvolvimento infantil”, explicou.
Essa mediação também está presente nas atividades cotidianas que muitas vezes passam despercebidas aos olhos de quem observa a Educação Infantil de fora da escola.
Brincar também é aprender
As participantes do PodPrô destacaram que uma das maiores dificuldades enfrentadas pela Educação Infantil ainda está relacionada à compreensão do papel pedagógico das brincadeiras. Frequentemente associadas apenas ao entretenimento, as atividades lúdicas constituem, na verdade, um dos principais instrumentos de aprendizagem na primeira infância.
Quando exploram materiais, participam de jogos simbólicos, interagem com colegas ou criam situações de faz de conta, as crianças desenvolvem habilidades cognitivas, emocionais, sociais e linguísticas que serão fundamentais ao longo de toda a vida escolar.
Por trás de cada proposta existe planejamento, observação e intencionalidade pedagógica. Não se trata de preencher o tempo da criança, mas de organizar experiências capazes de ampliar suas possibilidades de desenvolvimento e aprendizagem.
Essa compreensão reforça a necessidade de reconhecer a complexidade do trabalho realizado pelos profissionais da Educação Infantil e sua contribuição para a formação das novas gerações.
Uma conquista construída pela luta
As reflexões apresentadas durante o programa também dialogam diretamente com a trajetória histórica da Educação Infantil no Brasil. Durante décadas, o atendimento às crianças pequenas esteve associado a uma lógica predominantemente assistencialista, voltada ao cuidado e à proteção enquanto as famílias desempenhavam suas atividades de trabalho.
A Constituição Federal de 1988 representou uma mudança significativa ao reconhecer a Educação Infantil como direito da criança e dever do Estado, incorporando-a oficialmente à Educação Básica. Apesar desse avanço, as marcas do passado ainda permanecem presentes em muitos discursos e contribuem para a desvalorização do trabalho desenvolvido por professoras e professores da primeira infância.
Nesse contexto, discutir valorização docente significa também disputar concepções sobre o próprio papel da Educação Infantil na sociedade. Significa reconhecer que educar bebês e crianças pequenas exige conhecimento científico, planejamento pedagógico, formação específica e compromisso profissional.Mais do que uma etapa preparatória para os anos seguintes da escolarização, a Educação Infantil possui identidade própria e desempenha papel fundamental no desenvolvimento humano.
Da invisibilidade à valorização
É justamente essa trajetória histórica que inspira o tema do 4º Seminário da Educação Infantil da ACP. Ao propor uma reflexão sobre a passagem da invisibilidade à valorização através da luta sindical, a entidade reafirma a importância da organização coletiva na conquista de direitos, no fortalecimento da identidade profissional e na defesa da educação pública.
A valorização docente, nesse sentido, ultrapassa as discussões sobre carreira e remuneração. Trata-se de reconhecer que a qualidade da educação oferecida às crianças está diretamente relacionada às condições de trabalho, à formação e ao reconhecimento social daqueles que atuam diariamente na primeira infância.
Ao defender a valorização dos profissionais da Educação Infantil, a ACP também defende o direito das crianças a experiências educativas de qualidade e a um desenvolvimento pleno. Afinal, valorizar quem educa as infâncias é investir no futuro que está sendo construído dentro de cada sala de aula.
Assessoria de Imprensa/Marithê do Céu

















