Nota de repúdio da ACP contra o assassinato racista de João Alberto Silveira, dentro do Carrefour de RS

Neste 20 de novembro – Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, instituído pela Lei Federal Nº 12.519, de 10 de novembro de 2011 – a ACP se preparou para uma campanha de divulgação da importância de se valorizar, respeitar e proteger as pessoas, os valores, a cultura, a produção intelectual, a potência da comunidade negra no Brasil. No entanto, novamente estamos aqui para repudiar, veementemente, mais um ato terrível de violência –  o assassinato brutal de um homem negro. João Alberto Silveira, de 40 anos, espancado até a morte por dois homens brancos, um segurança da rede de supermercados Carrefour e um policial militar. O crime aconteceu dentro do estacionamento do supermercado da rede no bairro Passo D’Areia, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, na noite desta quinta-feira (19).

Os dois criminosos foram presos em flagrante e devem responder por homicídio qualificado. Seus nomes não foram divulgados, mas sua brutalidade, covardia e assassinados estão registrados em vídeo que esfrega na cara de todos nós, brasileiros e brasileiras, a forma como a nossa sociedade trata as pessoas negras deste país.

Mais um assassinato que entra na conta do racismo estrutural, cruel, nojento e massacrante que está na raiz da construção do Brasil.

“Ele disse: ‘Milena, me ajuda’, mas os seguranças não deixaram me aproximar. Seguiram com o pé em cima dele, e quando desmaiou, continuaram com o pé em cima dele”, afirmou emocionada Milena Borges Alves, esposa de João Alberto que estava com ele no supermercado, ao jornal GaúchaZH nesta sexta-feira (20).

Simbolicamente, tudo isso é muito significativo para as pessoas negras deste país. Mais um ataque de morte que não pode ser naturalizado!

Só nesta semana pós primeiro turno das eleições municipais, quando a comunidade negra e toda a sociedade brasileira pode, felizmente, constatar e comemorar o crescimento da eleição de pessoas negras para os parlamentos de todo o país, com destaque para as mulheres negras eleitas, cis ou transgênero, alcançando votações expressivas, como a mais votada da mesma Porto Alegre, Karen Santos (PSOL), assistimos também, quase que como uma resposta da sociedade de senhores de escravos, a reação violenta contra a primeira vereadora negra eleita de Joinville (SC), a professora Ana Lúcia Martins (PT), que sofreu injúria racial e foi até ameaçada de morte nas redes sociais.

Trágica e desgraçadamente, João Alberto é tombado, morto, assassinado às vésperas do dia dedicado à celebração de sua existência – é o desfecho cruel de um país que insiste em violentar, negar o legado de  resistência de Zumbi, Dandara, Luiz Gama, Marielle e tantos homens e mulheres negras que lutam para viver, existir e preservar a dignidade própria, de seus ancestrais arrancados de África e seus decentes filhos da dor e da beleza de ser negro no Brasil.

À branquitude, resta encarar seus crimes cometidos ou cumplicemente negligenciados, e encarnar sua responsabilidade no combate ao racismo e toda forma de violência e discriminação.

Finalizamos esta nota, com as palavras de Roberta Camargo, Juca Guimarães e Nataly Simões, no texto publicado nesta sexta-feira, no site Alma Preta – Jornalismo Preto e Livre:

“Esse é mais um 20 de novembro em que precisamos buscar forças para seguir em frente em uma sociedade onde nossa cor de pele nos faz alvos, onde somos sete a cada dez vítimas de homicídios, oito a cada dez mortos em intervenções policiais. Meu maior desejo é um dia poder falar apenas sobre a potencialidade e resistência dos nossos ancestrais que nos trouxeram até aqui, por João Alberto e tantos outros que não mais poderão”.

ACP – Desde 1952, nossa luta não para em defesa da Educação Pública e contra toda forma de violência e discriminação!