JM 100 anos: Centenário da EE Joaquim Murtinho marca o ano de celebrar a história da educação pública de Campo Grande

A ACP prestigiou, na manhã desta quarta-feira (15), a solenidade em comemoração pelo centenário da Escola Estadual Joaquim Murtinho. Presente no centro da capital, a escola centenária faz parte da história da educação pública e da construção de Campo Grande como a capital que hoje temos.

O evento que celebra os cem anos da escola aconteceu ao longo do dia e foi aberto ao público, a fim de apresentar à sociedade a história do local, além de receber antigos alunos, professores, funcionários e a comunidade que fez da escola uma das mais conhecidas de Campo Grande.

A presidente em exercício da ACP, professora Zélia dos Santos, a secretária de comunicação e ex-professora da escola, Lilian Teles, e o presidente licenciado e ex-diretor da escola, professor Lucilio Nobre, participaram da cerimônia do centenário.

A manhã de festa contou com apresentações musicais, teatrais e show de talentos, além de uma ação comandada pelo atual diretor, Claudio Morinigo Ribeiro, que teve o apoio cultural da ACP, para marcar os cem anos do JM – como a escola é carinhosamente chamada.

Alunos, professores e funcionários que viveram o momento atual, escreveram cartas para os futuros ocupantes daquele espaço de aprendizado e vivências. As cartas foram enterradas em uma cápsula do tempo, no pátio da escola, na manha desta quarta-feira, com um placa sinalizando o local, o motivo e a orientação para que ela seja desenterrada no dia 15 de junho de 2122 – data do próximo centenário.

“Em 2022, a ACP completou 70 anos, e celebramos também o centenário da escola Joaquim Murtinho com muita alegria, ressaltando o peso histórico dessa instituição escolar, que se mistura com a mesma história e potência da ACP. Foi daqui do JM que saíram vários dos professores e professoras que fundaram a ACP. A escola tem tradição não só na formação pedagógica de professores em Campo Grande, mas também na organização da categoria e luta por direitos. Até hoje, grande parte dos professores e professoras são filiados ao sindicato. Claudio Morinigo é integrante da diretoria da ACP. Enquanto fui professor e diretor dessa escola, sempre militei no sindicato e defendi o crescimento e a valorização da nossa escola e da educação pública. É uma satisfação pessoal festejar o centenário do JM”, destaca Lucilio Nobre.

A presidente interina, Zélia dos Santos, parabenizou toda comunidade da escola e destacou o perfil de luta de seus professores. “Hoje é dia de celebrar a história construída por quem faz a educação: professores, funcionários e alunos! A escola Joaquim Murtinho é referência quando se fala em valorização da escola pública. São professores que fazem seu trabalho e lutam pela melhoria dele. Não é uma filiação só de número. Os professores daqui estão à frente de todas as nossas mobilizações. Então, celebrar os cem anos do JM é celebrar a luta e valorizar o trabalho dos professores e professoras de Campo Grande também. Vida longa à escola Joaquim Murtinho!”, celebra a professora Zélia.

Conheça a história do JM

A seguir, veja um trecho da reportagem de Natália Olliver, publicada no jornal Correio do Estado desta quarta-feira (15), que conta um pouco da rica história da Escola Estadual Joaquim Murtinho.

A história do colégio começa em 1922, sob um nome diferente do conhecido hoje. Na época, ela estampava em seu letreiro o nome Normal Joaquim Murtinho.

A instituição era destinada exclusivamente à formação de professores e estava instalada no prédio Grupo Escolar de Campo Grande, ainda no antigo Mato Grosso.

O local foi projetado pelo engenheiro e arquiteto Camilo Boni e demolido em 1974 para construção da nova escola. As informações sobre o período são escassas e divergem em determinados pontos.

De acordo com os registros da professora de matemática de Ensino Primário Ana Carolina Siqueira Reis – que resgatou a trajetória do colégio em seu trabalho de dissertação de mestrado em Educação, em 2014 –, a escola teve dois períodos: sendo o primeiro correspondente ao início das atividades até o ano de 1940, com Educação Primária, e o segundo, de 1948 a 1974, já com o foco na formação de professores.

O coordenador e historiador Izadir Francisco de Oliveira revelou que a escola chegou a funcionar como um “quartel secreto” anti-Getúlio Vargas, em 1932, durante revolução constitucionalista.

REFORMA

O Correio do Estado noticiou a demolição do prédio da antiga Normal Joaquim Murtinho em 16 de fevereiro de 1974. O texto anunciava a construção da nova escola sob os dizeres literários.

“A velha escola Normal Joaquim Murtinho está sendo demolida para dar espaço a modernos blocos, com salas de aula modernas e funcionais. A escola viu passar por seus portões e por suas classes gerações de campo-grandenses em busca do saber. Hoje, sem portas, sem janelas e quase totalmente destelhada, vai para o baú das recordações. Se portão não mais se abrirá para os seus alunos. Só os novos blocos caberá a primazia de ver a juventude aprendendo” diz a notícia.

A estrutura idealizada e projetada pelo arquiteto e engenheiro Camilo Boni formava discentes de 11 a 20 anos. Conforme o estudo divulgado por Ana Carolina Siqueira Reis.

Na primeira fase da escola, apesar de a maioria dos alunos ser natural de Mato Grosso, há documentos de pessoas nascidas em Alagoas, Ceará, Distrito Federal, Pará, Paraná, São Paulo e Rio Grande do Sul.

Já na segunda fase de funcionamento da Escola Normal Joaquim Murtinho, período destinado apenas à formação de professores, os alunos terminavam o curso com idades entre 17 e 41 anos, com maior incidência daqueles concluintes com idade superior a 30, a partir da década de 1960.

Uma das justificativas para a formação mais tardia era o número de casamentos realizados e o abandono escolar.

Entre os formados havia alunos naturais de Mato Grosso, São Paulo, Pernambuco, Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais, Santa Catarina, Goiás, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Alagoas, Sergipe, Paraná e Paraíba.

MODERNIDADE

O diretor Claudio Morinigo Ribeiro acrescentou que a estrutura da instituição como é conhecida hoje é bem diferente, tanto na questão arquitetônica quanto na organizacional.

“A primeira tinha apenas nove salas, hoje nós temos 28 salas em um prédio de dois andares”, pontuou.

Hoje, a escola é reconhecida pelo alto padrão de rendimento escolar e atenção voltada apenas a estudantes de Nível Médio. Exceto pela única classe de 9° ano do Ensino Fundamental presente no prédio.

Conforme o representante, por ano, a instituição de ensino coloca, em média, 600 a 700 alunos no mercado acadêmico e de trabalho. Este ano, estão matriculados 1.430 estudantes, entre eles 530 são do último ano do Ensino Médio.

Ribeiro estudou na instituição quando ela ainda formava professores, desde então não saiu mais dela. Passou 16 anos como professor e em 2015 virou diretor.

“Ela é muito grande, não só na estrutura, mas por todo contexto e história. É uma escola muito intensa e pulsante. Por isso é uma grande responsabilidade estar à frente da instituição”, evidencia.

O diretor pontuou que ser uma escola dedicada à educação de jovens é um fator benéfico para a instituição.

“Para nós, é muito positivo, porque atendemos um público só, com características mais semelhantes entre as salas. A gente já tem, mais ou menos, os mesmos comportamentos, mesmas características culturais, os problemas relacionados à idade são muito próximos uma da outra, como aluno do 1° e 3° ano. Isso nos oportuniza conhecer a realidade do adolescente para atender melhor eles”, relata.

ESSÊNCIA
O representante salientou que um dos motivos da escola continuar firme na questão educacional de cidadãos é a homogeneidade em meio à diversidade gritante no Estado.

“A riqueza do Joaquim Murtinho é a mistura do que é a nossa sociedade sul-mato-grossense: negros, índios, japoneses, paraguaios, árabes. Então, tudo isso se mistura na escola, ela não tem uma característica só, ela tem uma soma. Aí está o potencial e a riqueza da instituição”, ressalta.

Sobre a fama da escola, Ribeiro afirma que os alunos são a propaganda da instituição e que a permanência no local vem de gerações.

“Nós temos mães que trouxeram os filhos e agora os netos estudam lá. Então, a propaganda feita por eles acaba gerando a alta procura na escola. Nós não escolhemos os alunos, são eles que nos escolhem. A gente recebe e faz o nosso trabalho de ambientar e criar um local favorável paro aprendizado”.

A aluna Lorena Aparecida de Cerqueira Vargas, 20 anos, terminou o Ensino Médio em 2019 no Joaquim Murtinho. Para ela, a instituição era mais do que uma escola. Além dela, as primas ainda fazem parte do quadro de alunos matriculados.

“Nós adorávamos estudar lá, tanto é que sentimos falta sempre. Teve um grande significado na minha vida, porque eu conheci pessoas novas, aprendi coisas novas, tive experiências diferentes, e as formaturas foram muito boas”.