Cantareira comemora 1º título do futsal feminino e maior vitória é para o futebol de mulheres da ACP

Por Warley Ribeiro*

Antes de celebrarmos a grande conquista de nossas meninas cantareinistas nas quadras da ACP, convido você a refletir um pouco sobre as barreiras transpostas pelas mulheres na história recente do futebol até chegarmos aqui.
Primeiramente, utilizarei o termo futebol para expressar a prática dessa modalidade, tanto nas quadras, quanto nos campos, pois faz parte da alma brasileira o amor por ela, não havendo muitas vezes distinção entre os milhares de praticantes e torcedores espalhados por esse país.

Poucas pessoas sabem, mas é necessário lembrar, que a Lei que proibia a mulher de jogar futebol surgiu após um jogo entre duas equipes de mulheres em São Paulo, por volta de 1940, expondo um machismo latente na sociedade paulistana, que via o futebol como esporte violento e voltado apenas para os homens, contrariando assim, segundo a lei,  a “natureza feminina” que deveria servir ao lar e seu esposo. Em 14 de abril de 1941, o então presidente da república, Getúlio Vargas assinou o Decreto Lei 3.199, que proibiu as mulheres de praticarem a modalidade. Vale à pena a leitura do Artigo 54 desta lei, que diz:

“Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”.

Essa lei vigorou até 1979, quando foi revogada. A partir daí campeonatos e eventos relacionados ao futebol começaram a ser promovidos, contudo, apenas em 1983 foram criadas regras e regulamentos, que são utilizadas até hoje. Apesar de cair a proibição, o preconceito e o machismo estrutural insistem em menosprezar a prática pelas mulheres.

Mesmo com avanços e conquistas ao longo dessa trajetória, o futebol de mulheres nunca alcançou a notoriedade e prestígio, conferidos ao esporte quando praticado por homens. Fato verídico, ao compararmos o salário de Marta, jogadora brasileira eleita 6 vezes a melhor do mundo, com o de Neymar, jogador da seleção brasileira, que sequer figurou na 2ª posição entre os melhores do mundo. Hoje Marta recebe 400 vezes menos que Neymar. A jogadora, em 2019, após a eliminação do Brasil pela França na Copa do Mundo, fez duras críticas à organização e fomento da modalidade em nosso país, e lamentou ao dizer: “o futebol feminino depende de você para sobreviver”, fazendo alusão às meninas que lutavam para se manter na prática do futebol no Brasil.

Atualmente, 80 anos após a Lei 3.199, muitos poderiam dizer que as coisas mudaram para melhor. É o que chamamos de copo meio cheio e copo meio vazio: depende da ótica de quem analisa. Eu prefiro dizer que houve avanços, mas é preciso muita luta para tornar-se igual ao masculino.

Clubes de “camisa” encamparam a ideia e começaram a trabalhar com departamento feminino e disputar competições regionais, nacionais e internacionais, porém ainda não dão a devida atenção nas questões de estrutura de trabalho, salários e sobretudo premiações por títulos, que são ridiculamente menores que as dos homens.

E chegamos aqui no nosso quintal, pequenininho, mas não menos importante, pois a luta começa no micro e vai ganhando força até chegar no macro. As meninas guerreiras, professoras ou não, lutam para manter viva a prática do futebol de mulheres da ACP, com muita garra, disposição e sacrifício, pois além de serem atletas, têm que enfrentar jornadas exaustivas no trabalho, no lar e no matrimônio. Aí te pergunto leitor ou leitora: qual a diferença de hoje para 1941? Somente o fato da criminalização, pois a mulher que jogasse poderia ser presa, porém hoje as prisões estão nos olhares de reprovação e preconceito daqueles que dizem que “futebol não é coisa para mulheres”.

Oras, por que um homem, então, está escrevendo esse texto e não uma mulher, já que não é o seu lugar de fala?
Quem disse que não? Quem disse que só mulher tem que escrever sobre futebol feminino? Não, não, não… O olhar crítico sobre o futebol de mulheres, cuja contribuição visa a melhoria das condições de trabalho e prática delas, são bem-vindas de todos os lados, sem distinção.

Feito isso amigos e amigas, “bora” para o título do Cantareira!

Encerrou-se neste último sábado (11/11/2021), mais uma competição de Futsal de Mulheres realizada pela ACP (Sindicato Campo-grandense dos Profissionais de Educação), que contou com a participação de 4 equipes formadas por professoras e dependentes.

O Grêmio Esportivo Cantareira entrou com duas equipes A e B, lideradas pela professora e atleta Bárbara Brites. “É muito importante que as meninas continuem praticando o futsal e trazendo outras mais. Não há adversárias, pois quanto mais equipes estiverem participando, quem ganhará com isso somos nós, pois aumentará ainda mais o nível técnico”, explicou Brites.

As duas equipes chegaram ao pódio, sendo que o Cantareira B, formado pelas atletas Larissa (goleira), Vanessa Ramos, Anahí, Patrícia, Bárbara Brites e Jéssica Sayuri, conquistou o inédito título de campeão da Copa da Saudade da ACP.

“Estamos muito felizes pela conquista. As meninas estão se destacando muito”, comentou o presidente do clube Flávio Miranda Barbosa. A medalha de bronze foi conquistada pelo Cantareira A, formado pelas atletas: Karen (goleira), Sthephanny Fernanda, Silvani, Kamilla, Karol e Gissele. “Lutamos até o fim. Gostaríamos de fazer uma final entre os dois Cantareiras, mas ficamos felizes por elas e pelo nosso 3º lugar”, comemorou Silvani Ribeiro, que marcou dois gols na competição.

Campanha do Cantareira B (1º Lugar)
Cantareira B 2 x 6 Cantareira A
Harpia 2 x 8 Cantareira B
Tilangas FC 3 x 4 Cantareira B
Final: Cantareira B 4 x 2 Tilangas FC
Campanha do Cantareira A (3º Lugar)
Cantareira B 2 x 6 Cantareira A
Tïlangas FC 3 x 1 Cantareira A
Harpia 5 x 3 Cantareira A
Final: Cantareira A 3 x 2 Harpia

 

*Warley Ribeiro é professor de educação física e estuda o tema “futebol de mulheres”, como objeto de pesquisa para projeto de mestrado