02 de abril: Reflexões para além do Autismo – Vamos Conhecer o Autista?

         No Dia Internacional de Conscientização sobre o Autismo, a ACP publica um artigo da professora Adriana Bellei, diretora de escola da Rede Estadual de Ensino de MS e mãe de uma menina de 6 anos diagnosticada com TEA – Transtorno do Espectro Autista. Leia o texto, saiba mais e reflita sobre o autismo através do olhar de quem conhece todas as suas faces.
 
Nascemos para sermos incríveis, não perfeitos!
 
         A Organização das Nações Unidas (ONU) definiu, no final do ano de 2007, todo 2 de abril como sendo o Dia Mundial de Conscientização do Autismo (World Autism Awareness Day), que pede mais atenção ao TEA – Transtorno do Espectro Autista (nome oficial do autismo), que é uma síndrome complexa e mais corriqueira do que se pensa, mais comum em crianças que AIDS, câncer e diabetes JUNTOS.
         O azul foi definido como a cor símbolo do autismo porque a síndrome é mais comum no sexo masculino — na proporção de quatro meninos para cada menina. Centenas de prédios e monumentos em todo o mundo estarão iluminados de azul para lembrar a data. A fita com quebra-cabeças colorido também o simboliza. O quebra-cabeça representa o mistério e complexidade do autismo. As diferentes cores e formas representam a diversidade das pessoas e das famílias por ele afetadas.
         Estima-se que no Brasil haja 2 milhões de pessoas com autismo, cerca de 1% da população. No mundo, a ONU (Organização das Nações Unidas) estima que tenhamos 70 milhões de autistas. Em Campo Grande/MS, a AMA (Associação de Pais e Amigos do Autista), através do programa AMA Itinerante, estima um número aproximado de 8 mil pessoas com TEA.
         TEA é uma síndrome comportamental complexa que atinge três áreas: dificuldade de socialização, na linguagem/comunicação e alterações no comportamento, com movimentos repetitivos e restritivos. O transtorno atinge de forma distinta cada autista, que tem diferentes níveis de comprometimento — leve, moderado ou grave — e por isso precisa de atendimento diferenciado. O Autismo Infantil foi descrito inicialmente por Leo Kanner em 1943 quando ele identificou crianças apresentando prejuízos nas áreas supracitadas, e caracterizou essa condição como sendo única e não pertencente ao grupo das crianças com Deficiência Mental.
         As famílias que tem pessoas diagnosticadas com TEA se deparam com um universo repleto de interrogações, angústias. Pouco se sabe, efetivamente, sobre o autismo. Existem inúmeros estudos e pesquisas em andamento, mas até o momento não se descobriu a origem, a causa do transtorno. Na maioria dos casos, a mãe acaba ficando sozinha para dar conta da situação, sem amparo na própria família e muito menos na sociedade. O preconceito é enorme, pois esta é uma deficiência que, em geral, não está ―estampada na cara‖, ela não é física – é comportamental. E cada um, é muito distinto do outro, por exemplo: uns são verbais, outros não desenvolveram nenhum tipo de comunicação.
         Lidar com a pessoa com TEA não é nada fácil pois insistimos em um padrão, queremos todos “iguais”. É muito complicado não conseguir. Imagine-se num país que você não conhece a língua, não se adapta aos costumes, não consegue se comunicar, mas terá que ali viver – como seria? Faço a analogia para tentar compreender as crises que ocorrem. Alguns se auto agridem ou agridem quem está perto. A maioria faz uso de medicação controlada.
         Ao invés de buscar conhecê-los com mais profundidade, queremos enquadrá-los nos nossos parâmetros sociais, mas por quê?
         Tenho uma filha de 6 anos diagnosticada dentro do Espectro do Autismo. Garanto à vocês que um turbilhão de questionamentos povoam a minha mente desde que soube da sua deficiência, quando estava com 2 anos e 6 meses de vida. É um mundo novo que vem se descortinando à nossa frente. Dia a dia, são novas descobertas, novos desafios, sendo um dos maiores, a aceitação do diagnóstico e mais ainda, ver além dele, ver que quem está ali, é um ser humano com características únicas, como todos nós temos, mas bem peculiares.
         O assunto é denso e extenso. Deixo sugestões de sites que podem auxiliar na pesquisa e estudos nas escolas. Há que se ter "inclusão", sem que haja exclusividade.
         Para finalizar, trago a contribuição de Manuel Vazquez Gil, Psicólogo e Psicanalista Clínico, com Mestrado e Doutorado em Psicanálise. Pai de autista:
 
“Um mundo mais humano e justo, sem mentiras, sem hipocrisia, sem tolerância com o crime de qualquer espécie, mais livre e mais fraterno, onde cada um pudesse exercer sua individualidade sem ser socialmente comparado e condenado por isso, onde a tônica dominante fosse a ingenuidade, e ninguém se aproveitasse de ninguém justamente por ser ingênuo. Desde que o mundo é mundo que pessoas sonham isso: Aristóteles, Sêneca, Cristo, Buda, Joana D'Arc, Colombo, Nietzche, Freud, Robespierre, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Martin Luther King, Gandhi, Mandela, Tereza de Calcutá, Irmã Dulce, Che Guevara. Todos tentaram, a maioria pagou com a própria vida. Mas eles estavam sozinhos… Agora, eles vêm em batalhões, são cada vez em maior número, já são 70 milhões, desta vez nós, os normais, os que queremos manter nossas idiossincrasias, vaidades, privilégios, pecados, ambições, não podemos derrotá-los. Por que não paramos de lutar, por que não nos juntamos a eles e reconhecemos que estão certos, que o mundo deles é o certo, que precisamos aprender? Por que não paramos de tentar modificá-los, transformá- los em seres imperfeitos como nós? Por que não nos espelhamos neles, e não nos esforçamos para sermos mais parecidos com eles? O que está nos impedindo de melhorar o mundo, de alcançar o modo justo de viver? Já podemos, agora, não estamos mais sozinhos, temos um exército que quer que sigamos com ele. A partir de amanhã, se você quiser, podemos ser 70 milhões e 1. E esse 1 vai fazer toda a diferença.”
 
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